Indústria de satélites ainda está dividida sobre medidas para uso da faixa de 3,5 GHz no 5G

Uma nota técnica elaborada pelas operadoras e encaminhada à Anatel na semana passada procura colocar como melhor solução para a faixa de 3,5 GHz a convivência com a banda C, apenas aumentando a banda de guarda. Já há algum tempo, as teles argumentam que essa alternativa é a mais viável não apenas do ponto de vista técnico, uma vez que atende a uma quantidade menores de receptores de TV parabólica (TVROs), mas também do viés econômico, já que o total estimado a mitigação é de R$ 455,7 milhões, contra R$ 7,7 bilhões do custo previsto para a migração dos equipamentos para a banda Ku. O setor de satélite, contudo, ainda não tem um consenso.

Fonte da indústria satelital ouvida por este noticiário afirma que há ainda uma discussão sobre a melhor técnica a ser adotada por conta de um fator: a migração para a banda Ku, apesar de mais cara, seria uma solução mais definitiva, em uma eventual necessidade de se limpar também o espectro de 3,8 GHz a 4,2 GHz para o 5G (IMT). Além disso, há interesses econômicos em jogo: a TVRO atualmente funciona por um meio não regulamentado. Com a migração para a banda Ku, um serviço novo seria criado, com a devida regulamentação, o que geraria ainda oportunidades para operadoras venderem capacidade satelital. “O pessoal de broadcast já está defendendo a banda Ku, porque eles têm certeza – e eu nem concordo com isso – de que assim o serviço dá lugar ao IMT”, afirma.

Por outro lado, ainda não se descarta também a convivência da banda C, defendida pelas teles. “Acho que o setor de satélites vai estar aberto às duas opções”, declara. Isso porque, na opinião da fonte, a convivência é viável tecnicamente. O grande fator é o satélite Star One C2, que teria que reorganizar sua operação para adequar as transmissões para suportar a TVRO sem sofrer interferência. “Eu acredito que seja possível, dependendo de quantos canais de TV tem e da técnica de compressão para poder espremer a faixa de 3,8 GHz a 4,2 GHz. Tecnicamente é possível, e eu particularmente acho mais palatável, porque reduz o preço.” Há a percepção também que os testes realizados pelo CPqD são suficientes para tirar essa conclusão, diz.

O problema, contudo, é que há o desafio das retransmissoras. No satélite C2, bastaria digitalizar as portadoras analógicas, além de otimizar o uso do transponder para adequar mais portadoras do que existe atualmente. “Problema é que na hora que faz isso, tem caras como Globo, SBT e Record que vão querer ter os sinais analógicos e os regionais. O desafio deles é saber quantos sinais eles têm que colocar e como fazer isso: se será portadora, ou se multiplexa todo mundo junto”, diz. A faixa estendida de 3,6 GHz a 3,7 GHz seria menos problemática, argumenta, já que são serviços menos críticos.

Porém, a Embratel lançará já em 2020 um novo satélite, o Star One D2, que terá maior potência. Se a empresa conseguir comprimir o sinal, poderá colocar menos faixa para mais canais. Isso está previsto na nota técnica das operadoras, que inclusive é assinada pelo grupo Claro. “Novo satélite Star One D2 facilitará a mitigação por permitir inclusive o uso de parabólicas de 1,5m teladas e demais sistemas de TVRO que já estejam deteriorados, porém em operação atualmente, devido à maior potência de transmissão”, coloca a nota.

Outra vantagem da mitigação para a convivência da banda C com o 5G, conforme diz a fonte ouvida por este noticiário, é a possibilidade de implantação gradual. Diferentemente do processo de migração da TV analógica para a TV digital, no qual era necessário limpar toda a faixa de 700 MHz; e da solução de migração para a banda Ku, que teria de ser feita de uma vez só; desta vez seria apenas uma porção de 100 MHz da banda de guarda na banda C que teria de ser endereçada. Mesmo assim, isso ocorreria em casos específicos, e não para todas as regiões e usuários de TVRO. “Assim, temos uma discussão menos desgastante e radical, a faixa vai sendo implementada conforme a real necessidade”, diz.

Esse fator da implantação gradual é importante também porque, além da digitalização da TV já ter reduzido a quantidade de usuários dependentes de TVRO (o que explicaria a diferença da estimativa da base feita pelo PNAD 2017 em relação à da EAD), o avanço de provedores regionais pode também ajudar a diminuir essa base, uma vez que muitas dessas empresas locais chegam já com fibra e IPTV (sem falar em soluções over-the-top) em áreas mais afastadas, pelo menos para residências que conseguem arcar com os custos.

Insegurança
A migração para a banda Ku ainda tem um problema: as operadoras alegam que a solução poderá trazer insegurança jurídica às vencedoras do leilão de 5G. Segundo as empresas, isso aconteceria por haver dúvida sobre a responsabilidade de ressarcir os investimentos em banda C e/ou remanejar os transmissores de TV para a banda Ku; sobre a responsabilidade de ressarcir investimentos em banda C de eventuais transponders inutilizados nos satélites nacionais e estrangeiros outorgados a operar no Brasil; e se os custos sejam repassados ao edital. Além disso, argumentam que a TVRO não é um serviço regulamentado, o que poderia levar a entender que os usuários não possuem direitos de proteção contra interferências prejudiciais. “Nesse sentido, o próprio usuário de TVRO seria o responsável pela mitigação de eventual interferência prejudicial que venha a experimentar na presença de redes móveis na faixa de 3,5 GHz implantadas futuramente”, diz a nota.

“Não faz sentido ter que arcar com uma conta dessas [da migração da banda Ku]. Tem gente que acha que o 5G vai gerar uma maravilha de dinheiro e vai poder pagar tudo. Mas vai ser um desafio, pois o 4G ainda é um desafio”, declara a fonte do mercado, citando as dificuldades de investimento de operadoras móveis como a Oi e a recente decisão do Grupo Telefónica de se desfazer de ativos em outros países na América Latina. “Por isso a solução da banda C parece ser a mais econômica, suave e sem ninguém precisar gastar mais dinheiro.”

Nota técnica
O documento elaborado pelas teles estabelece que, mesmo na estimativa de 12,5 milhões de TVROs no Brasil segundo estudo da EAD, a parcela de receptores em áreas urbanas (cruzando com a indicação de 72,09% de presença de TVROs) seria reduzida a 9,011 milhões desses terminais e que, de fato, estariam na zona em que poderia haver interferência na faixa de 3,5 GHz com o 5G. Contudo, a característica de propagação das antenas nessa frequência toma como uma área de cobertura de 1,13 km², dos quais apenas 11,11% teriam condição de alinhamento com os feixes das antenas de banda C – ou seja, 0,13 km². As operadoras ainda entendem que não se deve esperar compromissos de abrangência de cobertura com a faixa de 3,5 GHz para o 5G, justamente devido às características de propagação. Outros fatores como a demanda, a oferta de conectividade e a facilidade na implantação da infraestrutura podem ser relevantes.

Ainda há a possibilidade de mais de uma ERB ficar em um local estratégico (o documento não cita, mas o compartilhamento de infraestrutura e de espectro poderia ter o mesmo efeito), o que reduz a mancha territorial sujeita a interferências. Assim, há uma estimativa de quantidade de estações para cada cenário de cobertura urbana de 219,4 mil a 250,5 mil ERBs para 5G em 3,5 GHz instaladas no País. Da mesma forma, com a relação de TVRO/km² e área de interferência, a quantidade de TVROs interferidas seria de 2,131 milhões a 2,426 milhões desses equipamentos. O estudo ressalta que há necessidade de parâmetros razoáveis e conservadores para assegurar que a implementação das mitigações seja seguramente suficiente.

Assim, estima que o cenário referente para custos considere uma cobertura de 75% da área urbana do Brasil, impactando efetivamente um total de 2,278 milhões de TVROs, ou apenas 18,2% da base total. O custo da mitigação dessa base elegível é de R$ 200 por estação, dos quais R$ 80 são da troca do filtro LNBF, R$ 80 pela mão de obra e R$ 40 pelo deslocamento urbano. Somando tudo, o custo total para a mitigação é de R$ 455,7 milhões.

No cenário de migração para a banda Ku, todas a base de usuários de TVRO precisaria entrar no processo, ou seja, os 12,5 milhões de atuais receptores. Há ainda uma diferença no custo individual: como é necessário um novo kit de banda Ku (antena parabólica + LNBF específico) de R$ 120; uma troca de receptor de R$ 200; a mão de obra da visita técnica de R$ 200; e mais os R$ 100 do deslocamento urbano e rural; o total unitário é de R$ 620. Multiplicado pela base total de TVRO, chega-se ao valor de R$ 7,750 bilhões.

(Teletime)

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